


Os ingleses entendem de mercado mais do que qualquer outro povo civilizado. Foi aqui que Adam Smith explicou o seu funcionamento, séculos atrás. (Foi aqui também que Karl Marx postulou sua contra-explicação.) Mais recentemente, foi em nome do mercado que, goste-se ou não, Margareth Thatcher reergueu o país.
Em vez de ficar esbravejando inutilmente contra o mercado (como fazem os franceses), os ingleses vão lá e tiram o maior proveito que podem dele.
Eu passei um fim de semana em Londres investigando o comportamento dos mercados. Estas são as minhas conclusões:
Mercado de Portobello Road


Mesmo apinhadíssimo, continua simpatiquinho. A mistura de antigüidades, cacarecos e comida continua dando certo; os pubs, lojinhas, cafés e restaurantes dos arredores são charmosos e garantem um programa gostoso, mesmo que todos os nossos colegas turistas tenham tido a mesma idéia de passeio. Dia: para pegar a feira de antigüidades, sábado. Metrô: Notting Hill Gate (linhas Central, District e Circle).
Mercados de Camden Town

Hmmm... acho que cheguei uns vinte anos atrasado, pelo menos. Camelodromeiro (!) demais pro meu gosto. Mas se você se interessa por heavy-metal ou punk, ou ainda se acredita em duendes, certamente vai achar o que está procurando. Dias: todos os dias. Metrô: Camden Town (linha Northern).
Borough Market


Bobeei total e acabei não indo ao Ceasa/Les Halles londrino, que abre para o público três vezes por semana. Além de comprar frutas nas barracas, dá para aproveitar restaurantes e stands de comida que funcionam em volta. Quando você for, não bobeeie: o Borough Market abre às quintas (11h às 17h), sextas (12h às 18h) e sábados (9h às 16h). Metrô: London Bridge (linhas Northern e Jubilee).
Mercado de Flores de Columbia Road

Que lindeza! Uma ruazinha inteira vendendo flores e plantas. E o que mais incrível: gente comprando de verdade :-)


Em volta há lojinhas bacanas e bons lugares para tomar café da manhã (tudo gourmet, organic e fair trade, como o tempo exige).


Se você ficar até o meio-dia, vai ver os floristas liquidando o que não for vendido -- no final acabam saindo vasinhos e maços de flores a uma ou duas libras (você vai ter vontade de levar para enfeitar o quarto do hotel).


Ao meio-dia também abre o Royal Oak, pub histórico onde você pode abrir os trabalhos cervejísticos do dia ou, se fizer reserva, comer o tradicional roast de domingo (recomendado pela Juliana). Dia: domingo (das 8h às 14h). Metrô: Old Street (linha Northern).
Mercado de Spitalfields

A menos de 10 minutos de caminhada de Columbia Road, é a continuação natural dos estudiosos do comportamento dos mercados aos domingos. Fica num pavilhão coberto (recentemente reformado), por isso funciona com qualquer tempo. Tem roupa de butique a preço de balaio. Felizmente eu sou um blogueiro de viagem, não uma editora de moda, senão não teria conseguido sair de lá nunca mais. O mercado tem uns restaurantões bem simpáticos, com um pezinho no fast food ma non troppo, muito usados pelos executivos da City durante a semana. Dia: quase todo dia tem alguma coisa, mas o forte é domingo. Metrô: Liverpool Street (linhas Central, Circle, Metropolitan e Hammersmith & City).
Upmarket


Basta seguir o fluxo para chegar a Brick Road, mais conhecido enclave bengalês da cidade. Além dos restaurantes indianos um ao lado do outro (equivalentes às cantinas do Bexiga paulistano), a rua funciona como playground para mudernos & alternativos. Nos estacionamentos dos prédios da (desativada) cervejaria Truman funcionam mercados de moda de vanguarda nos fins-de-semana pra quem acha que Spitalfields é certinho demais. Por ali, além dos indianos, há também uma viela só de restaurantes mega-alternativos (e algumas barracas de comidas étnicas).

Não, o bonequinho que ilustra esse post não é londrino. Como alguns já sabem por aqui, trata-se do Ampelmann, querido mascote dos sinais de pedestres de Berlim Oriental, que esteve ameaçado de aposentadoria e hoje já começa a ser visto também no antigo lado ocidental da cidade.
Na Alemanha é irritante a obediência das pessoas ao sinal de pedestre. Mesmo numa cidade pouco certinha como Berlim todo mundo espera o sinal verde para atravessar, mesmo que não haja nenhum carro à vista. Se você atravessar no vermelho e houver gente perto, prepare-se para olhares de censura.

Ao chegar à Inglaterra foi divertido constatar que os ingleses, tão certinhos, atravessam a rua de qualquer jeito, à brasileira, na primeira brecha que encontram.
No começo eu gostei, mas hoje vejo que isso é um perigo.
Nesses oito dias em Londres, já escapamos duas vezes de ser atropelados (uma vez eu, outra o Nick) porque atravessamos na primeira oportunidade -- mas olhando para o lado errado.
Hoje é nosso último dia por aqui, e a lista de coisas a conferir é enorme. Mas já estou me programando para, mesmo na correria, lembrar de atravessar a rua com calma.
Contra a mão inglesa, só mesmo o método alemão :-)

Londres é uma cidade pródiga em terapia ocupacional para turistas, er, digo -- em atrações.

Existem dois tipos de atrações em Londres. As grátis e as caríssimas.

As grátis são os museus nacionais. Todos pedem doações em urnas de acrílico postadas na entrada e em pontos-chaves dos prédios -- mas não consegui pegar nenhum visitante no nobre ato da contribuição.

Além de gratuitos, os museus públicos abrem todos os dias da semana e mantêm um controle de segurança mínimo. Em alguns deles, como o British Museum, a National Gallery, a Tate Britain e a Tate Modern, os guardinhas nem sequer param a gente para ver o que tem dentro das bolsas.

E, ao contrário do que acontece na França e na Itália, ninguém fica escondendo a Mona Lisa no meio do labirinto do prédio. A Pedra de Roseta, atração mais famosa do British Museum, está naquela que provavelmente será a primeira sala que você vai visitar.

(Fica envergonhada não, dona; eles nem tão prestando atenção na senhora.)
Ver tudo, com calma, numa viagem só, é impossível. (Numa segunda, terceira ou quarta também, porque cada museu já visitado vai apresentar alguma exposição temporária fantástica.)
A propósito, tem uma performance em cartaz na Tate Britain: a cada cinco minutos, um corredor zune por algumas galerias, simbolizando o comportamento do visitante moderno dos museus perante as obras exibidas.

Mas, como eu ia dizendo, quando uma atração em Londres não é grátis, então ela é caríssima.
Entrar na Abadia de Westminster, a 12 libras por cabeça, sai mais caro do que visitar o Vaticano. Subir na Catedral de São Paulo custa 10 libras (mais caro que subir na Torre Eiffel). A visita de verão ao Palácio de Buckingham, que inclui a passagem pelo Salão de Baile preparado para um banquete de estado, sai 15,50 libras por turista. 45 mangos!

De tudo o que tem a ver com os clichês londrinos, a única atração grátis é essa aí -- mas em compensação, não aceita visitantes...

Como eu não compartilho do fetichismo reinante pela família de Elizabeth e Charles, abri a mão só para subir de novo na Londoneye (13,50 libras) e tentar fazer alguma foto decente com a câmera nova.


Não dei muita sorte, porque o sol entrou para trás de uma nuvem bem na hora em que a nossa cápsula começou a subir.


Mas adorei ter comprovado a minha tese, formulada algumas semanas atrás, de que a Roda Gigante de Paris é infinitamente mais bacana :-)))))
Se você achar que está gastando demais com as suas turistagens em Londres, o antídoto é simples: inclua museus no caminho. Tem o Victoria & Albert, o Museu de Ciências, o Museu de História Natural, o Museu das Docklands... fazendo a média, o nível de preço vai ser europeu.


Outra boa idéia é visitar a Harrod's. Já no térreo mesmo você passa pelas boutiques mais caras da loja, e pela espetacular ala de comida.

Se você conseguir ficar com a carteira dentro do bolso, pode sair da loja com a sensação de que economizou uma fortuna :-)

Dorival Caymmi inventou o hipertexto.
Repare nessa letra:
Coqueiro de Itapuã
Coqueiro
Areia de Itapuã
Areia
Morena de Itapuã
Morena
Saudade de Itapuã
Me deixa
Quando Caymmi repete "coqueiro", "areia" e "morena", ele não repete nem "coqueiro", nem "areia", nem "morena": ele nos permite vestir essas palavras com todas as melhores imagens poéticas que já nos passaram pela cabeça sobre coqueiro, areia e morena. Tudo isso, sem usar um adjetivo, um verbo ou um advérbio sequer.
Dorival Caymmi inventou o chiclete-de-ouvido.
Nenhuma canção de Caymmi demora mais de uma audição para ser repetida de cor. Qualquer verso tem aparência, consistência e textura de refrão. E ele usava e abusava dessa qualidade, transformando qualquer um de seus versos perfeitos num refrão fora de lugar.
Adalgisa mandou dizer
Que a Bahia tá viva ainda lá
Que a Bahia tá viva ainda lá
Que a Bahia tá viva ainda lá
Caymmi compunha como quem fala. Nenhum compositor brasileiro conseguiu ser tão coloquial.
Se fizer bom tempo amanhã
Se fizer bom tempo amanhã
Eu vou!...
Mas se por exemplo chover
Mas se por exemplo chover
Não vou!...
Junto com Jorge Amado, Dorival Caymmi deu o formato definitivo à idéia que fazemos da Bahia. E, lá dentro do seu universo baiano, conseguiu falar de todos nós.
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar, ai
Quem vem pra beira do mar, ai
Nunca mais quer voltar
Como eu não tenho talento para fazer uma homenagem à altura do gênio, pirateio a letra de uma canção quase caymmiana (ficou longa demais para os padrões dorivalinos), feita por seu ex-genro, Gilberto Gil, em dueto inesquecível com Nana Caymmi.
O nome da canção é Buda Nagô e esses são os meus trechos favoritos:
Dorival é ímpar
Dorival é par
Dorival é terra
Dorival é marDorival é belo
Dorival é bom
Dorival é tudo
Que estiver no tomDorival é um Buda nagô
Filho da casa real da inspiração
Como príncipe, principiou
A nova idade de ouro da cançãoMas um dia Xangô
Deu-lhe a iluminação
Lá na beira do mar (foi?)
Na praia de Armação (foi não!)
Lá no Jardim de Alá (foi?)
Lá no alto sertão (foi não!)
Lá na mesa de um bar (foi?)
Dentro do coração
Dorival é um monge chinês
Nascido na Roma negra, Salvador
Se é que ele fez fortuna, ele a fez
Apostando tudo na carta do amorAses, damas e reis
Ele teve e passou (iaiá)
Teve o mundo aos seus pés (ioiô)
Ele viu, nem ligou (iaiá)
Seguidores fiéis (ioiô)
E ele se adian-tou (iaiá)
Só levou seus pincéis (ioiô)
A viola e uma florDorival é índio
Desse que anda nu
Que bebe garapa
Que come beiju
Dorival no Japão
Dorival samurai
Dorival é a nação
Balança mas não cai
Adeus, gênio da raça. Obrigado por tudo!

De longe, parece que ele está com a tradicional alegoria de cabeça da ala dos guardas da Rainha.
Mas quando você aproxima no Photoshop, descobre que não é nada disso: trata-se de um inusitado cabelo black power com chapinha.

Breve num salão perto de você!