Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?
Deve haver algum lugar no Brasil em que a vida seja menos virtual. O terremoto desta semana, de intensidade razoável para o nosso histórico sísmico, levou algum pânico momentâneo, mas foi esquecido quase incontinenti, quando a mídia também dele se esqueceu. Um evento que poderia ter conseqüências bem mais dramáticas, dada a precariedade dos nossos sistemas de defesa contra acidentes, e que perdurou menos que o desempenho do Palmeiras no domingo.
Para um sujeito que mora no vigésimo andar de um prédio de Higienópolis, no entanto, a memória do terremoto perdura. Não o desta semana, que ele sentiu levemente, mas um que vivenciou há 23 anos, na Cidade do México. O diretor de teatro e pseudo-comentarista esportivo Cacá Rosset estava com seu grupo levando a peça Ubu, de Alfred Jarry, na capital mexicana, quando um terremoto avassalador, de 8,1 na escala Richter, o tirou literalmente da cama por volta das 7 da manhã.
Era uma quinta-feira, dia que ele e seus companheiros voltariam ao Brasil. “Tomamos baldes de tequila na noite anterior”, ele lembra. “Acordei com a cama sendo jogada de uma parede à outra.”
"Meu primeiro pensamento foi 'abusei do álcool'”, ele me diz, mas logo ele viu que aquilo era muito pior que uma ressaca. No hotel em que estava, e que foi demolido após o terremoto, morreram várias pessoas, entre elas algumas bailarinas do grupo Crazy Horse, de Paris, de quem a turma de Cacá havia se tornado amiga.
Todos os 20 e tantos membros do Ornitorrinco, o grupo de Cacá, acabaram se encontrando na rua em frente ao hotel, mas um deles, que havia dormido fora do hotel, demorou muito para chegar. Eles ainda conseguiram embarcar para o Brasil – foi o último vôo que partiu do aeroporto da capital do México.
Cacá conta que estava num bloco intermediário do hotel, que se manteve razoavelmente intacto, enquanto o pau comia nos andares mais altos. E que o grupo ainda fez a insanidade de voltar aos quartos em que estavam para recuperar suas bagagens ("a maior cagada de nossas vidas").
Cacá explica como é um terremoto: “Primeiro vem um barulho assustador que parece vir das entranhas da terra; imiediatamente depois, um silêncio sepulcral; logo, a gritaria, a choradeira.”
Cacá não ficou exatamente traumatizado com o evento, mas relutou bastante em aceitar um convite para voltar ao México em 1990. Ao passar defronte ao lugar onde estava o hotel – e que então tornara-se uma área livre, um playground -, conta ter ficado bastante abalado.
Na terça do terromoto paulista, Cacá estava "particularmente extenuado", sentado diante de seu computador, em seu apartamento do vigésimo andar. Notou sua cadeira a tremer. "Que porra é essa?", pensou. Achou que ela tivesse quebrado, mas percebeu que a tela do PC também tremia. Aquilo de novo. Aqui? "Não, bicho, não pode ser."
Foi à janela e não viu os prédios "caindo como geléia", uma imagem que usou para descrever a cena mexicana. Só soube que "sim, podia ser", quando uma amiga telefonou e disse que a vibração da cadeira fora ação de um terremoto.
Não se tem certeza do número de mortos no México. Oficialmente, o dado é de 4500. Mas outras fontes falam em 30 mil. Em São Paulo, algumas rachaduras atribuídas ao terremoto causaram desconfiança. Segundo um geógrafo ouvido pela rádio Jovem Pan na quarta-feira, "elas já deveriam estar lá."
Foto: Prédio destruído no terremoto mexicano - reprodução do Wikipedia