Viagem é o ato de ir de um a outro lugar relativamente afastado, como dizem os dicionários? Ou é chegar a um lugar em que sempre estivemos, ainda que sem termos ali colocado os pés? Qual é a sua viagem?Suzana Paquete é uma adorável colaboradora bissexta da VT. Estóica para as agruras do dia-a-dia e com uma vontade invencível de conhecer o mundo, é uma menina que não pára. Andou pela Europa inteira, aprendeu línguas estranhas e agora, apenas para me contradizer, sossegou um pouco. Decidiu quedar-se por Madri e já está lá há alguns anos. É ela quem assina a matéria sobre a capital espanhola que estará na VT de julho.
Suzana foi falar com alguns artistas que participaram da movida madrileña, o fenômeno boemio que tomou conta da cidade nos anos 80, com o fim da ditadura de Franco. Tempo de liberação sexual, cultural e política, retratada da maneira mais juvenil possível no primeiro filme de Pedro Almodóvar, "Pepe, Luci e Bom". Uma das interlocutoras da Suzana foi a cantora Alaska, uma figura meio platinada que recentemente conseguiu circular com algum destaque pelos computadores do mundo por ter posado nua em desagravo aos touros mortos e os touros que morrerão nas touradas espanholas.
Alaska acha que Madri não mudou nada desde 2004, quando o trem explodiu em Atocha, matando 199 pessoas. O que ela anda sentindo falta é de mais "conteúdo" de seus conterrâneos. "As pessoas não se importam aonde estão indo, que música estão ouvindo, não são exigentes. Andam pelas calles às 5 da manhã apenas para seguir a 'marcha'"
Por outro lado, ela adora Madri por ser - como o clichê comuníssimo sobre São Paulo - "acolhedora". "Ninguém te pergunta sua idade, opção sexual, religião, se é rico ou pobre."
E mesmo com a vigilância reforçada pós-Atocha, que teria levado Almodovar a dizer em 2004 que "Madri estava mais chata que Oslo", segue Alaska: "É a cidade menos regrada que eu conheço. Aqui, todos se misturam e se sentem bem." Pra finalizar, dá uma cutucada em Barcelona, a eterna rival: "Lá tem guetos, grupos, é um lugar mais fechado."
Eu estava em Madri em março deste ano, próximo do aniversário de quatro anos do atentado. Flores foram dispostas em muitas ruas, em memória dos 199.
As pessoas parecem muito solidárias com os que se foram, mas ao mesmo tempo entendem que a cidade nunca conseguiu se livrar de um certo ritmo de exceção, proporcionado por anos e anos de bombas do ETA. E, mesmo assim, consegue ser um dos lugares mais bacanas do mundo.