Não sou conduzido, conduzo. Não sou liderado, lidero. Eis o lema inscrito, em latim, na bandeira da cidade de São Paulo. Um único braço forte sob uma anacrônica armadura - a peça é de 1917 - carrega uma das bandeiras da Ordem de Cristo usada nas Cruzadas. Ornatos de ramos de café dão cor local ao conjunto.
A peça é de gosto suspeitíssimo, mas o lema cumpre sua função. Aí temos, em escala municipal, a eterna vanglória paulista de seu papel de locomotiva da nação, de São Cristóvão a atravessar os pobres passantes pelo rio. Um símbolo que viria a calhar 15 anos depois, na Revolução Constitucionalista.
Tudo isso para tentar cozer algumas idéias sobre a "paulistanidade". Corro das generalizações como vampiro do alho, mas tendo a concordar com um certo empreendedorismo paulista, e isso, evidentemente, vem desde o berço. Para que a capital fosse fundada, homens rudes enfrentaram a floresta, as montanhas da Serra do Mar e os índios que porventura lá estivessem. Em vez de se resolverem por São Vicente ou Cananéia, decididiram buscar o Sertão mil metros acima. Ao chegar ao planalto, encontram ali um rio caudaloso que levava direto ao Mato Grosso. Estava fundado o bandeirantismo.
É possível que não haja no baiano nem no carioca a tranqüilidade com que o paulista pega um carro e fica três ou quatro horas na estrada - tem sido mais, irritantemente mais - para ir à praia. Evidentemente baianos e cariocas não precisam disso (e talvez sejam mais inteligentes). Mas esse default, essa dificuldade inicial, talvez facilite as coisas quando o paulista encara travessias, desafios, caminhadas.
Hoje tive que socorrer a Geni, funcionária da minha família, que passou mal num ponto de ônibus. Depois de uma passagem pelo pronto-socorro, levei-a a sua casa, em Cantagalo, extremo norte (noroeste) da cidade. Ainda meio grogue, ela me mostrava os lugares em que havia vivido ou trabalhado em Pirituba, como que a me apresentar orgulhosa sua região. Se eu estivesse no seu lugar, possivelmente faria isso. Tenho uma necessidade talvez patológica de conduzir pessoas a destinos desconhecidos - oferecer, enfim, algo de uma mínima sabedoria própria. Lembro quando meu colega de faculdade André chegou na garupa da minha moto à entrada da Serra da Cantareira e disse: "Agora descobri onde acaba a cidade."
(André também gostava de apresentar coisas aos amigos, e era irritantemente professoral nisso. Aumentar a adoração pelo jazz-rock em geral e por Pat Metheny em particular parecia naquele tempo sua "causa".)
Não fruí a Pirituba da Geni. Ficava replicando para mostrar que também conhecia o lugar, que freqüentei o Piritubão (clube municipal), que já havia andado bastante por aqueles caminhos etc. Uma postura irritantemente paulista, como o lema da bandeira.
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