É difícil dizer qual dos novos "features" da cidade impressiona mais. Pequim se aprontou com rapidez exemplar para as Olimpíadas, as mais custosas da história - e mais que qualquer outro evento esportivo já realizado. Se Atenas 2004 foi criticada por estourar o orçamento e chegar a 7 bilhões de euros, Pequim vai fácil a 25 bilhões de euros. Além do Parque Olímpico, com seus estádios de fachadas impressionantes na região norte da cidade, o investimento chegou literalmente ao fundo da terra: até uma nova rede de esgoto foi feita.
Diante da pressão do Comitê Olímpico por um evento em sintonia com uma agenda de sustentabilidade, os organizadores de Beijing 2008 também prometeram atacar a péssima imagem ambiental da capital chinesa. Divulgaram-se o plantio de 28 milhões de árvores na cidade, a transferência de 212 fábricas poluidoras para outras regiões e o fechamento de outras 700. Falta dar uma solução ao crescimento desenfreado da frota de carros da capital, que atingiu 3,3 milhões e cresce em 1 000 ao dia. Frota que virtualmente não existia nos anos 80. Com isso, a eterna Cidade das Bicicletas está com os dias contados. Bem, quase: hoje elas são 2,4 milhões. Curiosa inversão essa: enquanto as capitais da Europa, Paris à frente, correm para ampliar dramaticamente o uso das bicicletas, Pequim se moderniza fazendo delas quase o inimigo a ser vencido. Elas estão lá, mas parecem ficar ilhadas em poucas ciclovias num mar de automóveis.
Pelas ruas, em que antes marchava o Exército da Revolução,agora há um novo soldado: os mais de 10 mil operários que trabalham dia e noite na reurbanização de Pequim. Dia e noite não é uma força de expressão. Alguns chegam a encarar 56 horas semanais, sem direitos trabalhistas. Ao menos não vivem na pobreza como 900 milhões de camponeses, que têm renda per capita de 250 dólares ao ano. Mas mesmo os chineses ficam surpresos com a rapidez das mudanças em Pequim. Wang Wei, de 68 anos, que viveu quase a vida inteira na cidade antes de passar oito anos em Cantão, no sul da China, conta que, quando voltou para a capital, em 2007, ficou desnorteado. "Pensei em comprar um mapa." De uma hora para outra surgiram novos cartões-postais com vocação para a eternidade, como o Teatro Nacional "Casca de Ovo", ao lado da Cidade Proibida. Cercado por um lago e todo coberto de vidro e titânio, causa um "caco" na paisagem - que, segundo o arquiteto francês Paul Andreu, autor do projeto, é proposital. Na zona olímpica, a jóia é o estádio "Ninho de Pássaro", com seu exterior de vigas de aço retorcidas que emulam o "ninho", num projeto assinado pelos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, e que vai abrigar a cerimônia de abertura dos Jogos. A eclipsá-lo, somente o "Cubo de Água". O projeto do arquiteto australiano John Pauline, que levou quatro anos para ficar pronto e consumiu nada menos que 6 700 toneladas de aço e 110 milhões de dólares, é um retângulo gigantesco cheio de "bolhas" transparentes por onde a luz solar passa para a água da piscina e a aquece naturalmente. Ali acontecerão as competições de natação e saltos ornamentais.
Mais cenas de ocidentalização explícita estão reservadas para o bairro de Chaoyang, onde está brotando um distrito de negócios. Há ali escritórios, os melhores restaurantes, centros comerciais repletos de lojas Chanel, Dior ou Fendi e modernos complexos residenciais. São centenas de arranha-céus envidraçados, parques que lembram ilhas verdes no meio do concreto e uma quantidade absurda de andaimes e guindastes. Dos 30 grandes projetos em andamento, chamam atenção a terceira torre do China World Trade Center, com mais de 70 andares, e a torre da futura sede da televisão estatal chinesa, a CCTV, projeto do holandês Rem Kolhaas. O edifício é uma espécie de Torre de Pisa chinesa - propositalmente torto. Com um cálculo estrutural preciso, desafi a a gravidade, ligando o topo de dois prédios inclinados a 230 metros de altura.
Se Pequim hoje começa a lembrar Tóquio e Nova York, consegue (ainda) manter vivas suas diferenças. Os prédios não têm os 4º, 14º, 24º, 34º andares porque o 4 é um número associado à morte. Os casais, que só podem ter um único filho - ou dois, excepcionalmente -, programam o nascimento de olho no horóscopo.Popularíssima é a medicina tradicional chinesa, da acupuntura às receitas de chá e à aplicação de ventosas nas costas. E a terrível e decana censura do governo comunista, que controla toda a imprensa nacional, os filmes em cartaz nos cinemas e a internet, ignora solenemente a pirataria, outro traço cultural que resiste.
Os mercados de pirataria são atração turística de Pequim. Muitos pela cidade e enormes, ocupando andares e andares. A nota irônica é que há sempre cartazes com o dizer "Pirataria é crime". E, embora a roupa encolha, o relógio pare ou o DVD trave, quando os turistas fiéis à "lei de Gérson" descobrem filmes recém-lançados por menos de 3 reais, camisas Lacoste a 8 e bolsas Gucci a 30, aproveitam e já compram também uma Samsonite falsa para facilitar o transporte.
Outra aula de antropologia chinesa in situ é uma visita ao bairro Wangfujing, no centro da cidade. Na, literalmente, "rua de comida pequena" (Wangfujing Xiaochijie), você vê gente traçando gafanhotos, lacraias, perninhas de sapo, bichos-da-seda e estrelas-do-mar. Uma herança do programa de coletivização da agricultura, no final dos anos 50, em que os chineses passaram fome e se viraram com o que havia à mão. Poucos turistas se aventuram nesse cardápio, mas todos querem ver o espetáculo, digno de reality show.
Os chineses consideram-se pais da cultura e da filosofia orientais. Converse com um local e ele prontamente repetirá o que aprendeu em idade escolar: esta é a civilização mais antiga do mundo, com 5 mil anos. O alfabeto é praticamente impenetrável para forasteiros - são "apenas" cerca de 20 mil ideogramas. Os chineses orgulham-se disso e passam horas escrevendo os caracteres na calçada. Acredita-se que a elegância da escrita denote o grau de instrução. Mais sinais da cultura chinesa aparecem pelas ruas. No sul de Pequim, o Parque Tiantan Gongyuan reúne respeitáveis senhores que fazem tai chi chuan e cantam e dançam em grupo, ao ar livre. O parque fica ao lado do famoso Templo do Céu, onde os grandes imperadores ofereciam sacrifícios em prol de boas colheitas na primavera.
Na destruição (e reconstrução) desenfreada da cidade, a região de Hou Hai conseguiu preservar um dos pouquíssimos hutongs - vilas antigas, com casinhas modestas - hoje existentes em Pequim. Contrate um riquixá (a pedal) e veja, pelas ruas estreitas, como viviam os pequineses antes do dinheiro. As casas têm pátios comuns, e as pessoas ainda saem à rua para conversar, brincar com as crianças, lavar panelas, tomar chá ou usar os banheiros comunitários, já que muitas casas não têm ducha. Os moradores não se incomodam com o vai-e-vem de forasteiros.
Ao contrário: sempre sorriem e posam para fotos com satisfação. Aproveite para ver a antiga Residência do Príncipe Gong, com as Torres do Sino e do Tambor. Até a década de 1920, funcionavam como o relógio do povo. Marcavam a hora de dormir (7 da noite!) e a de acordar (5 da madrugada). Hoje em dia os tambores do século 13 já não rufam para isso. Só um deles - velho mas descomunal - é tocado, para os turistas, de hora em hora.
No norte de Pequim, na área montanhosa, está uma seção da Muralha da China, uma das tais Sete Novas Maravilhas do Mundo. Com mais de 6 mil quilômetros de extensão, há quem afirme que a muralha é a única edificação feita pelo homem que pode ser vista da Lua a olho nu - embora alguns cientistas digam que isso é impossível. Ela começou a ser erguida no século 3 a.C. para evitar as invasões da Mongólia e agregou quase um quarto da população (militares, prisioneiros e campônios) na obra. Hoje é tomada pelo turismo de massa e por uma massa ainda maior de vendedores ambulantes. Pela estrada que conduz à muralha está também outra relíquia histórica: as Tumbas Ming, no Vale Shisanling. São os imponentes mausoléus de 13 imperadores, 23 imperatrizes e uma concubina high class. O vale, urbanizado sob os princípios de harmonia do feng shui, está rodeado de montanhas, e as catacumbas conectam-se pelo Caminho Sagrado Imperial, ladeado por enormes estátuas de animais construídas em homenagem aos soberanos.
Um pouco longe dali, e ainda mais ostentatório, o Palácio de Verão, no noroeste de Pequim, é um dos lindos cenários da cidade. Construído pela dinastia Jin, no século 12, ganhou status de residência imperial sete séculos depois, quando a extravagante imperatriz Cixi virou inquilina permanente. Gastando quase toda a verba que seu governo administrava, ela fez uma reforma com luxo de detalhes e criou mais de 3 mil cômodos, entre suntuosos quartos, pavilhões, pagodes e um teatro onde promovia festas grandiosas e recitais de ópera. Com 294 hectares de jardins ao redor do Lago Kunming, o palácio está bem conservado e é Patrimônio da Humanidade.
Mas a grande obra-prima da China imperial é a Cidade Proibida, que fica bem no centro de Pequim, ao lado da Praça da Paz Celestial. Foi construída para marcar a transferência de poder de Nanquim para Pequim, no século 15, e abrigou as dinastias Ming e Qing, que sobreviveram no poder até 1912. Era "uma cidade dentro de outra". Ninguém entrava lá sem autorização - daí o nome -, embora houvesse espaço de sobra. O palácio tem quase 9 mil cômodos, entre os recintos do imperador e os edifícios ao redor. O lugar sobreviveu ao saque dos japoneses em 1931 e às tentativas de demolição durante os anos 60, com a chamada Revolução Cultural.
Ali em frente, a célebre Praça da Paz Celestial (ou Tian'anmen) conecta o passado com o presente. Palco das grandes cerimônias cívicas, virou uma "Praça Vermelha" com o triunfo dos comunistas, em 1949. Ao longo das décadas, foi usada para demonstrações de força, culminando com o banho de sangue de 1989, em resposta à manifestação dos estudantes que ficou famosa mundo afora pela imagem do jovem que parou o tanque. Uma das maiores praças do mundo, com 440 mil metros quadrados, pode comportar até 500 mil pessoas e é a morada eterna de Mao Tsé-tung. O corpo embalsamado do líder da revolução comunista está lá e, assim como acontece com o de Lenin, em Moscou, milhares de pessoas passam diariamente para prestar-lhe reverência. Se vivo, Mao não reconheceria - e possivelmente não aprovaria - o que Pequim se tornou. Mas, pelas artes da história, ele continua ali, notavelmente sólido, concreto e ululante - como todos os novíssimos cartões-postais da cidade.
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